Perdas

 Ontem passei o dia me despedindo da minha vó...E estava tão triste hoje, mais que ontem...Eu sei que o que foi para aquele lugar escuro, fechado de tijolos não é ela, mas impressiona né? Impressiona muito um corpo inerte, frio...onde antes havia sorrisos e aconchegos. Daí que hoje eu estava numa tristeza infinita, me perguntando o que é a vida...Para que serve tudo isso?Me ajudou muito foram as histórias contadas no velório. Lembrar que ela teve uma história me tirou do universo prático...E me perdi no exercício de resgatar esses pedaços de vida que se confundem com um livro de literatura realista...  
Unica filha mulher entre sete homens, perdeu o pai quando ele tinha 27 anos, a mãe, viúva, com cinco filhos, aos 25 , teve a grande sorte de achar um novo "marido" , entre aspas  pois não era um marido oficial...e pode se virar, numa época em que as mulheres não tinham assim, muitos direitos ...teve mais dois filhos mas , com problemas cardíacos, morreu aos 42.
Dona Corina , minha vó,  ajudou a criar os irmãos, depois se casou, feliz, com meu avô, um homem bom, trabalhador e amigo até o fim. Teve uma vida de mãe, cinco filhos e depois muitos netos e bisnetos...Ela era feliz e um exemplo para todos nós, muito simples, não gostava de falar do passado e imagino o por que...Sua vida de esposa e mãe deve ter sido um oásis para quem cresceu fora de uma família tradicional se preocupando com o destino de seis irmãos. Ela, lembrando da história de sua mãe, definitivamente, devia ser a mulher mais agradecida do mundo, sentia-se com certeza agraciada pela sorte, pelos direitos trabalhistas conquistados, pela segurança que meu avô emanava com seu emprego de  funcionário publico.  A história individual dessa família resgata a história das lutas dos trabalhadores. Não é qualquer coisa o que aconteceu em um século! E assim aqui estou eu imaginando que vale a pena continuar, que os trabalhadores que caíram e caem todos os dias nas trincheiras das lutas políticas erguem-se a cada enterro de uma vida melhorada, cantando em volta a internacional comunista ( ahahahahah, ta bom, viajei). Mas que a memória deles e de sua luta não tenha sido em vão é um consolo para todos nós. Somos todos trabalhadores em luta, afinal. Luta por melhores direitos sociais, sempre. Que nada disso seja  em vão!
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